
Você sabe quem estava à frente do Banco Central enquanto o Banco Master ampliava sua atuação, que hoje é motivo de investigação policial? Ninguém mais, ninguém menos que Roberto Campos Neto, indicado à presidência do BC por Jair Bolsonaro e o principal responsável pela escalada da taxa de juros no Brasil.
Segundo reportagem publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo em 27 de janeiro, o então presidente do Banco Central do Brasil, Roberto Campos Neto, teria sido informado com antecedência sobre fragilidades relevantes na estrutura de ativos e na liquidez do Banco Master. Apesar dos alertas, nenhuma medida imediata de intervenção foi adotada naquele momento, o que permitiu que a situação da instituição se deteriorasse ao longo do tempo.
A reportagem aponta ainda que, durante a gestão de Campos Neto, o Banco Central editou em outubro de 2023 uma norma sobre a contabilização de precatórios (dívidas judiciais). A regra continha uma brecha que acabou beneficiando o Banco Master, ao dispensar a instituição de ajustar seu balanço. Na prática, isso permitiu que o banco seguisse operando com bilhões de reais em ativos considerados de risco, sem a necessidade de novos aportes de capital por parte dos sócios ou da venda de ativos.
Essa postura de tolerância ocorreu mesmo diante de sinais de alerta já presentes no mercado. De acordo com informações de matérias publicadas na imprensa, em agosto de 2023, a Warren Investimentos chegou a recomendar que clientes evitassem a compra de CDBs do Banco Master, demonstrando desconfiança em relação ao crescimento acelerado da instituição. A suspeita é de que o banco tenha se beneficiado da agenda de estímulo à concorrência defendida por Campos Neto para expandir suas operações de forma desordenada e possivelmente irregular, cenário que acabou levando à investigação conduzida pela Polícia Federal na Operação Compliance Zero.
O resultado está aí: um colapso que mexeu com todos os poderes da República, gerou instabilidade institucional e colocou trabalhadores em situação de instabilidade.
Gabriel Galípolo iniciou liquidação e averiguação
A mudança de postura do Banco Central só ocorreria posteriormente, já sob a presidência de Gabriel Galípolo, indicado pelo presidente Lula para suceder Campos Neto ao término de seu mandato. Em novembro de 2025, a autoridade monetária decretou a liquidação do Banco Master e iniciou uma apuração mais ampla sobre o caso.
O BC abriu uma investigação interna para avaliar possíveis falhas na supervisão da instituição ao longo de todo o processo, desde a rápida expansão do conglomerado controlado por Daniel Vorcaro até o colapso que levou à liquidação do banco. A nova administração também determinou a realização de uma auditoria interna para verificar se o Banco Central já possuía, em momento anterior, informações suficientes que justificassem uma intervenção mais precoce.
Os desdobramentos resultaram ainda em mudanças relevantes na estrutura de fiscalização. Paulo Souza, então diretor de Fiscalização e figura central da gestão de Campos Neto, foi afastado cerca de uma semana após a liquidação do Banco Master. Já Belline Santana, que comandava o Departamento de Supervisão Bancária, também deixou o cargo.
O futuro que queremos
Diante dos recentes escândalos, a coordenadora do Comando Nacional dos Bancários e presidenta do Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e Região, Neiva Ribeiro, defende um novo marco regulatório do sistema financeiro, com o objetivo de ampliar a fiscalização em um setor tão importante para o país. "O Brasil precisa avançar urgentemente em um novo marco regulatório do sistema financeiro, que garanta estabilidade econômica, proteção social, justiça tributária, segurança jurídica e respeito aos direitos trabalhistas", afirma.
"Defender os bancários e bancárias é defender o interesse público, a democracia e o desenvolvimento sustentável do país. Sem regulação forte, fiscalização rigorosa e proteção ao trabalho, seguiremos repetindo crises que penalizam sempre os mesmos: os trabalhadores e a sociedade", conclui Neiva.

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