
A negociação específica dos empregados da Caixa Econômica Federal na Campanha Nacional Unificada dos Bancários 2026 começou em 24 de junho, com a entrega da minuta de reivindicações construída e aprovada no 41º Congresso Nacional das Empregadas e dos Empregados da Caixa (Conecef). O documento reuniu as demandas debatidas pelas bases e passou a orientar as negociações para a renovação do Acordo Coletivo de Trabalho (ACT) específico do banco.
Ao longo das sete rodadas, realizadas até 24 de agosto, data da publicação deste texto, a Comissão Executiva dos Empregados (CEE/Caixa) tratou de temas como Saúde Caixa, promoção por mérito, Super Caixa, carreira, condições de trabalho, teletrabalho, remuneração variável, diversidade e contratação de novos empregados. Embora tenham ocorrido avanços pontuais, especialmente na Promoção por Mérito, os principais temas estruturais permaneceram sem solução ao final da sétima rodada.
Saúde Caixa: principal impasse da negociação
O Saúde Caixa foi o tema prioritário desde a entrega da minuta e esteve presente em praticamente todas as rodadas. A reivindicação dos empregados parte da defesa do caráter solidário e mutualista do plano e da necessidade de ampliar a participação financeira da Caixa.
A representação dos empregados cobra da Caixa uma solução estrutural para o Saúde Caixa, que aumente a participação do banco no financiamento do plano e não simplesmente transfira para trabalhadores, aposentados e pensionistas os sucessivos aumentos das despesas assistenciais, como ocorreu nas duas primeiras propostas apresentadas pelo banco nas mesas de negociação, ambas rejeitadas em mesa.
Primeira proposta — apresentada em 5 de agosto: o chamado “Modelo atual reajustado” previa aumento da contribuição dos titulares de 3,5% para 5,5% da remuneração-base, além de aumentos nas mensalidades dos dependentes e elevação do limite de comprometimento da renda familiar de 7% para 14%. A proposta foi recusada em mesa, uma vez que transferia aos trabalhadores o peso do crescimento das despesas do plano.
Segunda proposta — apresentada em 14 de agosto: a Caixa propôs mensalidades por beneficiário de acordo com a faixa etária, 13 contribuições anuais, piso de R$ 400 por grupo familiar e limite de comprometimento de até 12% da remuneração-base do titular. O modelo também alcançaria dependentes indiretos, considerados individualmente conforme a faixa etária. A representação dos empregados novamente recusou a proposta, reforçando a cobrança por maior participação da Caixa no custeio do Saúde Caixa.
Após a rejeição de duas propostas em mesa de negociação, havia a expectativa de que a Caixa apresentasse uma nova alternativa na negociação realizada em 19 de agosto. Isso não ocorreu. A rodada terminou sem nova proposta para o Saúde Caixa, e a representação voltou a cobrar uma solução que aumente a participação financeira do banco no plano de saúde.
De acordo com a representação dos empregados da Caixa, a questão do Saúde Caixa é agravada pela perda de beneficiários: entre 2023 e fevereiro de 2026, foram registradas 20.056 adesões e 35.446 cancelamentos, resultando em saldo negativo de 15.390 vidas. Em 2025, os usuários já respondiam por aproximadamente 46% do financiamento regular do plano, enquanto a Caixa arcava com cerca de 54%.
Situação do Saúde Caixa até 2023
O Saúde Caixa foi criado com o modelo de custeio 70/30, pelo qual a Caixa arcava com 70% das despesas e os empregados com 30%. Posteriormente, o banco impôs o teto estatutário de 6,5% da folha para sua participação.
Com o crescimento dos custos de saúde acima da folha, a trava passou a impedir a manutenção do custeio histórico e contribuiu para déficits, aumentando o peso sobre os beneficiários.
Para enfrentar os desequilíbrios, foi criada ainda uma cobrança adicional em novembro, sobre o 13º salário.
No fim de 2025, após mobilização das entidades, um novo ACT garantiu o reajuste zero das mensalidades: titulares permaneceram pagando 3,5% da remuneração-base, sem aumento para dependentes.
Também foram mantidos os limites de coparticipação, assegurada a inclusão de filhos estudantes até 27 anos, por R$ 800, e estabelecido o recolhimento de contribuições sobre verbas remuneratórias obtidas em ações judiciais.
O acordo vigora até 31 de agosto de 2026.
Situação financeira do Saúde Caixa em 2025
De acordo com o Relatório de Administração do Saúde Caixa 2025, as despesas do plano no ano passado alcançaram R$ 4,39 bilhões, alta de mais de 22%; as receitas foram de R$ 3,76 bilhões, crescimento de apenas 5%. Já o déficit operacional ficou em R$ 627,8 milhões.
O déficit foi coberto, principalmente, por R$ 581,1 milhões referentes a contribuições patronais sobre ações judiciais e acordos trabalhistas. A reserva técnica também foi utilizada e encerrou 2025 com apenas R$ 67,1 milhões.
As internações são o maior gasto do plano (R$ 1,78 bilhão). Hoje, quase 30% dos beneficiários do Saúde Caixa possui 60 anos ou mais, o que eleva os custos assistenciais. O custo médio por beneficiário aumentou 23,5% no ano passado.
Super Caixa: “Vendeu, Recebeu” e bônus para todos
A remuneração variável também foi alvo de críticas durante as negociações. A minuta reivindica a revisão do Super Caixa, com retorno ao princípio “Vendeu, Recebeu”, critérios claros, objetivos e previamente divulgados e tratamento isonômico entre rede, centralizadoras e matriz.
A CEE também defende:
- negociação dos programas de remuneração variável com a representação dos trabalhadores;
- fim de mecanismos que impeçam ou reduzam premiações por critérios considerados inadequados;
- transparência nos indicadores;
- fim de regras que estimulem competição predatória, assédio e adoecimento;
- criação do Bônus Caixa para todos.
Na sétima rodada, a representação voltou a cobrar que o Super Caixa seja negociado com os trabalhadores, já que atualmente o programa é elaborado pela própria Caixa sem participação sindical.
Promoção por Mérito: negociação registra avanços
Foi na Promoção por Mérito que a negociação apresentou um dos principais avanços concretos.
A primeira proposta da Caixa foi rejeitada pela CEE por estabelecer exigências consideradas excessivas para a conquista dos deltas. Após a pressão da representação, o banco apresentou um novo desenho e:
- retirou o Alcance.Caixa dos critérios para obtenção dos deltas;
- garantiu o pagamento dos deltas referentes ao ano-base 2026 em janeiro de 2027;
- garantiu o pagamento dos deltas referentes ao ano-base 2027 em janeiro de 2028;
- aperfeiçoou os critérios de desempate.
Pela nova proposta, os critérios de desempate passam a considerar, nesta ordem, a realização de cursos relacionados aos temas definidos em Grupo de Trabalho, o maior tempo de Caixa e a quantidade de ações realizadas. Todas as ações precisam ocorrer dentro do respectivo ano de apuração.
Para a representação dos empregados, a retirada do Alcance.Caixa é importante porque impede que uma progressão permanente na carreira fique vinculada a indicadores que não dependem exclusivamente do trabalhador.
Valorização da carreira: novos PFG e PCS são necessários
A negociação também evidenciou a defasagem dos instrumentos de carreira da Caixa.
A CEE reivindica a construção, com participação dos trabalhadores, de um novo Plano de Funções Gratificadas (PFG) e de um novo Plano de Cargos e Salários (PCS), além de mudanças nos Processos Seletivos Internos (PSIs).
Entre as reivindicações estão:
- fim das designações por minuto;
- regularização dos empregados que exercem permanentemente determinadas funções;
- definição clara de atribuições e responsabilidades;
- garantia de permanência nas funções;
- possibilidade de migração voluntária para funções de remuneração igual ou superior;
- critérios transparentes e objetivos para os PSIs;
- bancas examinadoras que reflitam a diversidade do quadro;
- igualdade de oportunidades para mulheres, pessoas negras, PCDs e demais grupos.
O atual PFG é de 2010 e, segundo a representação, não acompanha as transformações pelas quais passou a organização do trabalho. A situação é ainda mais evidente entre os técnicos bancários, que permanecem vinculados ao PCS de 1998.
Um resultado concreto dessa discussão foi a suspensão do processo de seleção para migração de caixas e tesoureiros. A Caixa reconheceu que o procedimento havia sido iniciado sem discussão prévia com a representação sindical e informou que o processo permanecerá suspenso enquanto o tema estiver em negociação.
Melhores condições de trabalho e combate ao adoecimento
A pauta de condições de trabalho atravessou as sete rodadas. A representação relacionou diretamente a sobrecarga, a pressão por metas, a falta de pessoal e o adoecimento ao modelo de organização do trabalho adotado pela Caixa.
Entre as reivindicações estão:
- redução da sobrecarga;
- combate às metas abusivas;
- fim de rankings e exposição vexatória de resultados;
- controle efetivo da jornada;
- direito à desconexão;
- fim de cobranças por WhatsApp e outros canais não institucionais fora do horário;
- regulamentação do teletrabalho;
- fim do atendimento simultâneo presencial e digital;
- proteção contra assédio moral, sexual e organizacional;
- participação dos trabalhadores na implantação de novas tecnologias e mudanças organizacionais.
Na última rodada, a CEE apresentou dados sobre a sobrecarga nas plataformas digitais, com equipes pequenas responsáveis por milhares de atendimentos e situações superiores a 600 atendimentos por empregado. Para a representação, o problema não está restrito às plataformas: também atinge agências físicas e digitais e tem reflexos no adoecimento e, consequentemente, nos custos do Saúde Caixa.
O direito à desconexão também foi abordado na discussão. Para a CEE, não basta bloquear os sistemas após o registro do ponto: é necessário impedir notificações e cobranças durante fins de semana, feriados e períodos de descanso e transformar a desconexão em uma política efetiva de proteção à saúde mental.
Mais contratações para combater a sobrecarga
A recomposição do quadro é considerada pela representação uma condição para melhorar tanto as condições de trabalho quanto o atendimento à população.
A minuta reivindica:
- mais contratações e novos concursos;
- recomposição das unidades;
- fortalecimento da rede física;
- respeito à estrutura de atendimento presencial;
- criação de funções para áreas que tiveram aumento de demanda;
- participação dos trabalhadores na definição das mudanças organizacionais e tecnológicas.
A avaliação da CEE é que a falta de empregados não pode ser tratada como questão secundária. A sobrecarga prejudica a saúde dos trabalhadores, compromete o atendimento e afeta a própria função social da Caixa, especialmente em serviços relacionados a benefícios sociais, políticas públicas, crédito e atendimento à população.
Na sétima rodada, a representação voltou a cobrar respostas sobre contratações, juntamente com PFG, PCS, PSI, remuneração variável, Super Caixa, PLR Social e condições de trabalho.
O que avançou e o que continua pendente
Depois de sete rodadas, a negociação produziu avanços pontuais, mas os principais eixos da pauta permanecem em aberto.
Avanços
- retirada do Alcance.Caixa da Promoção por Mérito;
- pagamento dos deltas em janeiro;
- aperfeiçoamento dos critérios de desempate;
- suspensão da migração de caixas e tesoureiros;
- reconhecimento da necessidade de discutir um novo PFG.
- Principais pendências
- Solução sustentável para o Saúde Caixa, com maior participação financeira da Caixa no curteio do plano de saúde;
- Saúde Caixa na aposentadoria aos empregados admitidos após 2018;
- novo PFG e novo PCS;
- critérios transparentes para os PSIs;
- revisão do Super Caixa e adoção do “Vendeu, Recebeu”;
- melhores condições de trabalho e combate à sobrecarga;
- regulamentação efetiva do teletrabalho e do direito à desconexão;
- combate às metas abusivas e ao adoecimento;
- ampliação do quadro e realização de novas contratações;
- negociação das mudanças tecnológicas e organizacionais com a representação dos empregados.
A negociação específica da Caixa, portanto, chega a este momento com alguns resultados obtidos pela pressão dos trabalhadores, mas também com importantes reivindicações ainda sem resposta. A defesa de um Saúde Caixa sustentável, a valorização da carreira, a recomposição do quadro e a melhoria das condições de trabalho permanecem como os principais desafios dos trabalhadores do banco público na Campanha Nacional Unificada dos Bancários 2026.

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