
A representação dos financiários esteve reunida durante toda esta quarta-feira (30), em São Paulo, com a Federação Interestadual das Instituições de Crédito, Financiamento e Investimento (Fenacrefi), para a rodada de negociação da Campanha Nacional 2026. Após um longo dia de debates, sucessivas pausas e muita pressão da comissão dos trabalhadores, foram conquistados avanços na proposta apresentada pelas financeiras.
A negociação começou com a representação dos trabalhadores rejeitando a proposta patronal inicial, considerada insuficiente diante das reivindicações apresentadas na pauta da categoria, que reúne mais de 70 cláusulas.
Segundo Talita Régia, secretária de Organização do Ramo Financeiro da Contraf-CUT, o índice de reajuste apresentado inicialmente pelas financeiras não atendia sequer à inflação do período, além de não contemplar uma série de reivindicações importantes da categoria. “Começamos a negociação deixando claro que a proposta apresentada estava muito distante do que os trabalhadores reivindicam. Não se trata apenas do índice de reajuste, mas também de avanços em cláusulas que dialogam diretamente com as condições de trabalho, saúde, jornada e direitos da categoria”, afirmou Talita.
Teletrabalho e controle da jornada
Entre os principais pontos cobrados pela representação dos financiários esteve a regulamentação do teletrabalho. A comissão destacou que diversas financeiras já adotam essa modalidade, mas que ainda não havia uma cláusula específica na Convenção Coletiva de Trabalho (CCT) estabelecendo parâmetros para sua realização.
A representação também reforçou a necessidade de garantir o controle da jornada. Para os trabalhadores, não é possível discutir novas formas de organização do trabalho sem assegurar mecanismos adequados de controle e respeito à jornada.
Outro ponto de divergência foi o trabalho realizado fora das dependências das financeiras, diante das características específicas das atividades desempenhadas pelos financiários. Também foi reforçada a cobrança por melhorias relacionadas ao ponto eletrônico e à gestão ética das novas tecnologias na relação de trabalho.
Saúde mental e NR-1
A implementação da NR-1 também voltou a ser debatida. A representação dos trabalhadores defendeu uma discussão mais aprofundada sobre os mecanismos de aplicação da norma, especialmente diante da necessidade de prevenção e enfrentamento dos riscos psicossociais no ambiente de trabalho.
A comissão destacou que a saúde mental é uma questão cada vez mais presente no mundo do trabalho e que as medidas de prevenção precisam ser construídas de forma efetiva, com participação dos trabalhadores.
Na proposta apresentada posteriormente pela Fenacrefi, foi incluída a criação de comissões paritárias para tratar da implementação da NR-1, com participação das entidades sindicais, mesas de acompanhamento setorial e comissões bipartites específicas.
Endividamento e medidas relacionadas às bets
As medidas relacionadas às apostas eletrônicas, as chamadas bets, também retornaram à mesa de negociação, após terem sido discutidas na reunião anterior.
A representação dos financiários voltou a defender medidas que contribuam para reduzir o endividamento das famílias. A avaliação apresentada pela comissão é de que a redução do comprometimento da renda pode ampliar a capacidade de pagamento das famílias e contribuir para o enfrentamento da inadimplência.
Para Jair Alves, diretor executivo da Contraf-CUT e coordenador da Comissão Nacional dos Financiários, a negociação coletiva é um dos instrumentos utilizados para buscar avanços nas condições de trabalho e de vida da categoria. “Estamos fazendo o debate diretamente na mesa de negociação, cobrando das financeiras avanços concretos nas cláusulas econômicas e sociais. Mas a defesa dos trabalhadores também passa pelo debate público sobre políticas que impactam o mundo do trabalho, como jornada, emprego, renda e redução da escala 6x1”, afirmou Jair.
“Por isso, é importante eleger candidatos comprometidos com a defesa das causas dos trabalhadores”, completou Talita.
Primeira melhora apresentada pela Fenacrefi
Após uma pausa, a representação das financeiras retornou à mesa com uma segunda proposta, mantendo integralmente a CCT e acrescentando alguns pontos reivindicados pelos trabalhadores.
Entre os avanços apresentados estavam:
Ausências legais: garantia ao trabalhador do direito de se ausentar do trabalho por até cinco dias a cada 12 meses, sem prejuízo do salário, para a realização de exames preventivos de câncer e vacinação contra o HPV;
Comissões paritárias para implementação da NR-1: participação das entidades sindicais, com mesas de acompanhamento setorial e comissões bipartites específicas;
Benefícios: reajuste correspondente a 100% do INPC para todos os benefícios.
A representação dos trabalhadores, no entanto, rejeitou o reajuste proposto para os benefícios, mantendo a reivindicação por aumento real.
Avanços no teletrabalho e na gestão da tecnologia
Após nova pausa nas negociações e o retorno à mesa no período da tarde, a Fenacrefi apresentou uma nova proposta. Um dos principais avanços foi a inclusão do teletrabalho na CCT da categoria.
As financeiras aceitaram criar uma primeira cláusula específica sobre o tema, com um texto mais amplo, permitindo que as condições sejam aprimoradas e detalhadas posteriormente em cada empresa.
Também foram apresentados avanços na gestão ética da tecnologia na relação de trabalho, com a inclusão de princípios gerais para orientar a utilização das novas tecnologias.
Outro ponto discutido foi a inclusão de A na CIPAA (Comissão Interna de Prevenção de Acidentes e de Assédio), denominação introduzida pela Lei nº 14.457/2022 e regulamentada pela Norma Regulamentadora nº 5 (NR-5). A proposta também contempla a criação de uma plataforma de treinamento e a garantia do direito à desconexão.
Reajuste econômico
Na parte econômica, a Fenacrefi apresentou reajuste correspondente ao INPC acrescido de 0,20% para os dois anos, aplicável a todas as verbas.
A representação dos financiários continuou pressionando por avanços, especialmente nas cláusulas econômicas e sociais, e a Fenacrefi voltou à mesa com o aumento da parcela adicional de 20% da parcela fixa, para 25%, além da manutenção de todas as outras já apresentadas.
Para Talita Régia, o resultado demonstra a importância da mobilização e da insistência da representação dos trabalhadores durante todo o processo de negociação. “Foi um dia longo de negociação, com muitos debates e pressão da representação dos trabalhadores. Conseguimos arrancar avanços importantes, mas seguimos avaliando o conjunto da proposta e cobrando aquilo que ainda precisa avançar. A nossa prioridade é garantir uma negociação que resulte em melhorias concretas para os financiários”, concluiu.
Para Jair, a negociação também reforça que a defesa dos direitos dos trabalhadores não se limita à mesa de negociação. “A atuação sindical busca ampliar esse debate na sociedade e no campo político, defendendo medidas que tenham impacto sobre a vida dos trabalhadores, como a redução da jornada e o fim da escala 6x1, com a adoção de uma jornada de cinco dias de trabalho por dois de descanso.”
A proposta irá para a avaliação dos trabalhadores em assembleias realizadas na próxima semana.

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