Lucros recordes do sistema financeiro e endividamento das famílias marcam os desafios da campanha salarial 2026
Data: 20/06/2026 às 19:41
Fonte: Contraf-CUT

A terceira mesa de debates da 28ª Conferência Nacional dos Bancários, realizada neste sábado (20), foi aberta com a palestra do doutor em Economia Social e do Trabalho pela Unicamp e técnico do Dieese, Gustavo Cavarzan, que apresentou o cenário de profundo paradoxo econômico em que a Campanha Nacional Unificada 2026 acontece: enquanto o Sistema Financeiro Nacional (SFN) registra lucros extraordinários, a maior parte da população brasileira enfrenta um comprometimento severo de sua renda, por conta do endividamento e das altas taxas de juros.

De acordo com dados do Dieese, o setor financeiro tem se sustentado, em grande medida, pelo crédito caro oferecido às famílias para consumo corrente que, por sua vez, é influenciado pela política monetária do Banco Central de manutenção da taxa básica de juros (Selic) em patamares elevadíssimos nos últimos anos.

A terceira mesa de debates da 28ª Conferência Nacional dos Bancários, realizada neste sábado (20), foi aberta com a palestra do doutor em Economia Social e do Trabalho pela Unicamp e técnico do Dieese, Gustavo Cavarzan, que apresentou o cenário de profundo paradoxo econômico em que a Campanha Nacional Unificada 2026 acontece: enquanto o Sistema Financeiro Nacional (SFN) registra lucros extraordinários, a maior parte da população brasileira enfrenta um comprometimento severo de sua renda, por conta do endividamento e das altas taxas de juros.

De acordo com dados do Dieese, o setor financeiro tem se sustentado, em grande medida, pelo crédito caro oferecido às famílias para consumo corrente que, por sua vez, é influenciado pela política monetária do Banco Central de manutenção da taxa básica de juros (Selic) em patamares elevadíssimos nos últimos anos. Cavarzan destacou que, atualmente, o cartão de crédito é o principal vilão, atingindo 84,9% das famílias endividadas.

"Fatores como a desregulamentação do SFN (com a ampliação de fintechs ofertando crédito de forma desproporcional), digitalização dos hábitos de consumo, com cadastro de cartão de crédito em diversos aplicativos de consumo (comida, mercado, transporte, magazines etc.) e legalização das BETS/jogos online em 2018 e sua expansão desde então, ajudam a entender por que, embora o rendimento médio real no Brasil tenha crescido 12% desde o período pré-pandemia, após o pagamento das dívidas com o sistema financeiro, esse crescimento real cai atualmente para apenas 3%", observou o economista.

Cavarzan apontou ainda que a quantidade de cestas básicas adquiridas pelo salário mínimo por ano em abril deste ano é semelhante à adquirida em abril de 2019. Além disso, somente em 2024, o Brasil conseguiu retomar o PIB per capita no patamar que estava em 2014.

“A deterioração econômica em setores importantes, provocadas pelos governos Temer e Bolsonaro, ainda estão sendo superadas. Em outras palavras, apesar do bom desempenho recente de indicadores macroeconômicos, estamos apenas retomando patamares de uma década atrás. Portanto, ainda que o governo Lula 3 siga apresentando bom desempenho nos indicadores macroeconômicos, a população não está satisfeita, afinal boa parte dos seus rendimentos está sendo drenada pelas altas taxas de juros, atrapalhando a percepção da melhora macroeconômica por parte das famílias", reforçou.

Lucros no topo, renda na base


Em contraste com a dificuldade financeira das famílias, o setor financeiro vem registrando rentabilidades extremamente elevadas, ano após ano. Entre 2020 e 2025, o lucro líquido do SFN cresceu 114%, com destaque para os bancos digitais, que registraram salto de 2.137% no lucro, seguido pelas cooperativas com 180% de aumento.

Os bancos privados e públicos também mantiveram tendência de alta, com crescimento de 114% e 46%, respectivamente. "Esse desempenho sólido ocorre no mesmo momento em que o setor se acopla à realidade do endividamento da população, extraindo resultados de linhas de crédito com alto comprometimento da renda das famílias", reforçou Cavarzan.

Mudanças estruturais e a tecnologia no setor bancário


A segunda palestrante da mesa, a mestre em Economia Política pela PUC-SP e também técnica do Dieese, Rosangela Vieira, destacou que o mercado de trabalho bancário passa por uma reestruturação agressiva, baseada na redução de custos operacionais e na digitalização. "Entre 2024 e 2025, os cinco maiores bancos fecharam 1.345 agências, totalizando queda de 37% na rede física, considerando esse período. Mas reestruturação não reflete uma retração no setor, que teve lucro líquido de R$ 124 bilhões em 2025, mas sim uma mudança de estratégia para focar em alta renda e no atendimento digital", pontuou a pesquisadora.

Rosângela destacou ainda que, paralelamente à eliminação de postos tradicionais, está ocorrendo a migração para áreas tecnológicas. "Enquanto as funções tradicionais de bancários sofreu uma redução de 24 mil postos (-57%), houve um aumento expressivo de 21 mil novos postos nas áreas de Tecnologia da Informação (+175%)", frisou, completando que a mudança de postos está alterando o perfil da categoria, já que parte significativa das novas vagas não segue a estrutura sindical tradicional.

"Em 2025, os bancos públicos concentravam 42% do emprego bancário no país. Durante os governos Temer e Bolsonaro, esse percentual foi reduzido em 22%, o que corresponde a uma perda de 21,1 mil postos de trabalho por ano. Caso esse ritmo de redução tivesse sido mantido durante o terceiro governo Lula - o que não ocorreu - o estoque de emprego dos bancos públicos seria cerca de 60,6 mil postos inferior ao observado em 2025, de 174,4 mil postos", calculou a economista.

Rosângela Vieira também apresentou dados que mostram a consolidação das cooperativas e fintechs no Sistema Financeiro Nacional. "Entre 2013 e 2025, a carteira de crédito e rede de atendimento das cooperativas subiu de 2% para 7% e saiu de 11% para 29% do SFN, respectivamente. Entre as fintechs, o fenômeno de expansão é semelhante. Só para dar exemplo do nome mais destacado, de 2021 até 2025, o Nubank aumentou em 75 milhões a base de clientes e multiplicou sua receita em 20 vezes, com lucro superior ao de bancos tradicionais, como Santander e Caixa", pontuou.

Mulheres perdem espaço e outros impactos da IA generativa


Um dos pontos de destaque da terceira mesa de debates da 28ª Conferência dos Bancários foi o impacto de gênero nas demissões. Rosângela Vieira destacou que as mulheres estão perdendo postos de trabalho de forma desproporcional, por conta da natureza das vagas eliminadas e das criadas. "Nos postos tradicionais que estão sendo extintos, as mulheres representam 62% da força de trabalho. Em contrapartida, nas novas vagas de tecnologia, que estão em expansão, a participação feminina é de apenas 24%, evidenciando a exclusão tecnológica do setor", reforçou.

A economista reforçou que as novas tecnologias também estão acelerando a substituição de funções administrativas e de atendimento básico (que tiveram redução de 57% entre 2015 e 2025) por cargos voltados a TI.

Avanços e desafios

Gustavo Carvazan concluiu que o movimento de redução estrutural (fechamento de postos de atendimento e de trabalho) deve seguir avançando na categoria, diante da consolidação dos novos atores (fintechs e cooperativas) e inovações tecnológicas.
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Rosângela Vieira, por sua vez, complementou que as mudanças na organização do trabalho, provocadas pelos mesmos fatores, intensificam os desafios relacionados às metas, saúde dos trabalhadores e à qualificação profissional.

A 28ª Conferência Nacional dos Bancários segue até domingo (21). Ainda neste sábado, a quarta mesa de debates vai tratar sobre estratégia de comunicação e organização da categoria para a Campanha Nacional 2026.

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